terça-feira, 5 de maio de 2015

BRASIL

UMA QUESTÃO DE APROVEITAR AS OPORTUNIDADES 




Caminha de maneira despreocupada, com um sorriso largo que combina com o sábado ensolarado de Coimbra. Anda em direção ao Parque Verde do Mondego, que está começando a florir com o início da primavera. Marco Antônio se senta em um banco, protegido do sol pelas sombras das árvores e começa o relato sobre sua experiência na Universidade de Coimbra e a vida em Portugal. 


Marco vem de Belém, região norte do Brasil. Lá estudou Educação Física, teve desejo de cursar Medicina, mas decidiu se aperfeiçoar em sua própria área, tentando se inscrever em um mestrado no exterior. Veio então para Portugal, no Algarve, a fim de realizar a segunda fase da prova do mestrado que havia escolhido. 



Para aproveitar o fato de já estar no país, Marco viajou um pouco e conheceu as universidades do Porto e de Coimbra. Na busca por maiores informações, ele constatou que o curso de Mestrado da Faculdade de Desporto da Universidade de Coimbra era o que almejava. Além disso, ponderou a vantagem de Portugal oferecer um custo de vida bem mais barato do que o que é oferecido no norte do Brasil. 



O processo de submissão da candidatura foi realizado online. Marco foi aceito na UC. Agora, era só preparar a mudança. 






Quando as fronteiras são visíveis



Sair do Brasil para Portugal é considerado por muitos algo fácil, tranquilo, afinal, é a mesma língua. Mas essa não é a realidade, segundo o brasileiro. Marco fala de como o choque cultural e a diferença linguística, no sotaque e uso de palavras, é um ponto negativo em sua nova vida. "Demanda muito tempo compreender o que as pessoas estão falando". 



Além do impasse com a língua, ele passou por uma grande dificuldade quanto ao relacionamento com as pessoas. Isso porque no Norte e Nordeste do Brasil as pessoas são mais próximas, apreciam o contato informal, ao contrário do que ocorre em Portugal, onde "as pessoas são mais na delas". 


A fronteira entre a realidade brasileira e a portuguesa se torna ainda mais evidente quando se pensa na segurança pública. Marco recorda de que um dia perdeu a carteira no autocarro e que conseguiu recuperá-la. A surpresa maior foi quando ele percebeu que o seu dinheiro ainda estava lá, junto de todos os seus documentos. 

No que diz respeito à vida acadêmica, para o estudante, a diferença está no enfoque. Como profissional da área de Educação Física, Marco teve a oportunidade de conhecer dois paradigmas totalmente diferentes: enquanto que no Brasil estudou e trabalhou com no "mundo fitness", voltado para os exercícios em ambientes fechados e com o auxílio de máquinas, em Coimbra ele estuda os exercícios "a céu aberto". "É bom porque acaba sendo engrandecedor. Eu sei o que se passa no Brasil e o que não se passa lá". 

Entretanto, até mesmo a mais antiga universidade portuguesa possui controversas que não diferem muito da realidade das universidades brasileiras, desde professores que faltam até os que pertencem à outras áreas e são remanejados, tendo pouca ou nenhuma motivação ao lecionar. 

Apesar desses problemas, é com nostalgia que Marco lembra de coisas que lhe aconteceram apenas porque era estudante da Universidade de Coimbra: teve a oportunidade de estudar com pesquisadores os quais havia lido, doutores e doutoras reconhecidos mundialmente por seus trabalhos, o que acaba por valorizar e motivar os estudantes universitários a persistirem na vida acadêmica.


Marcas da UC 

Não importa para onde vá, ou se fica onde sempre esteve. Se permaneça pouco ou muito tempo, você sempre deixará evidências de sua passagem, levará as lembranças dos lugares e pessoas que conheceu. É assim que se aprende, se ama, se diverte, faz amizades. 

Marco carrega consigo vestígios de tudo aquilo que a Universidade de Coimbra lhe proporcionou: todas as oportunidades acadêmicas, as palestras e conferências que esteve presente, todos os amigos que fez, festas em que esteve. Para ele, a maior realização que teve em Coimbra foi concedida pela universidade: a realidade de estar se tornando um pesquisador. 

Os desafios existem para se aprender e melhorar enquanto pessoa e profissional. Para Marco, seu grande desafio em Coimbra foi se permitir conhecer novas pessoas. No início foi bem difícil fazer amizades, mas ele ouviu o conselho de seu irmão, que lhe disse para "chegar de coração aberto para conhecer pessoas", não ter medo de conversar e sair da zona de conforto que se tem quando se está em casa.  

O brasileiro aprendeu que o choque cultural que teve ao chegar pode ser superado. Tudo fica mais fácil quando você entende a cultura. O tempo ensina como se deve falar, se portar, como tratar as pessoas, como viver na nova cultura. Já que, nas palavras de Marco: "você é que é o estranho. Você é quem tem de se adaptar". 

Agora, com a nova fase da vida já iniciada, tendo amigos e um bom currículo, ele confessa estar dividido. "Amo o Brasil, mas minha paixão é Portugal, é Coimbra".